ARTIGOT NEWS

***TO LET THE CAT OUT OF THE BAG - NOTE-BOOK OF HOPE - COSMIC MEMORY ***CONTRA OS EPÍGONOS DO APOCALIPSE - GRATIDÃO, OXIGÉNIO DA ALMA - ECOS DO FUTURO

quarta-feira, julho 26, 2006

QUERIDA DOLLY

1-4-dolly-1-nw>

In Diário Digital/Lusa, 04-07-2006 12:57:00

CLONAGEM: OVELHA «DOLLY» NASCEU HÁ DEZ ANOS

«Dolly» viveu perseguida pelos paparazzi desde que, há dez anos, nasceu graças à clonagem de uma célula adulta, um feito que chegou a ser comparado à bomba atómica e espoletou nos homens o medo de serem «copiados».
Aparentemente igual a todos os ovinos, esta ovelha nasceu mais igual que as outras, pois era semelhante à dadora da célula adulta que foi introduzida numa outra sem núcleo e de cuja junção resultou um embrião.

Esse embrião foi posteriormente implantado numa «ovelha de aluguer» que deu à luz a famosa Dolly, em 1996.

O estrondo chegou em Fevereiro de 1997, quando a equipa de cientistas do escocês Instituto Roslin anunciou o nascimento de Dolly, na altura com sete meses.

Dolly não foi o primeiro mamífero clonado, mas teve a particularidade de ser o primeiro a nascer através da transferência nuclear de uma célula (mamária) adulta (de uma ovelha com seis anos). O seu nome foi uma homenagem à cantora Dolly Parton, conhecida pelo seu proeminente peito.

O mundo ficou fascinado com as semelhanças genéticas entre Dolly e a mãe genética, de quem era irmã gémea, e a ausência de um progenitor em todo este processo.

O debate não faltou, uma vez que, tal como o homem, Dolly era um mamífero e os cientistas provaram que os mamíferos podiam ser clonados com células adultas e não apenas embrionárias.

Na altura, falou-se de tudo um pouco: dos perigos do eugenismo (criação de seres humanos perfeitos através da manipulação genética), do poder dos cientistas e da eterna busca pela perfeição.

Para ilustrar a temática, não faltaram imagens do exército nazi a lembrar como este perseguiu a ideia de criar seres perfeitos nem comparações do nascimento de Dolly à bomba atómica.

A inquietude atingiu o presidente dos Estados Unidos na altura, Bill Clinton, que proibiu a utilização de fundos federais para a clonagem humana.

O Vaticano pediu a condenação destas técnicas em humanos e as organizaç ões internacionais - como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a UNESCO e a Comissão Europeia - solicitaram estudos e mais estudos sobre o assunto.

Ainda em 1997, o Conselho da Europa adoptou um protocolo a proibir esta técnica em seres humanos.

Foi uma mistura explosiva de conceitos e debates éticos. Indiferente à discussão, a ovelha continuou a ser fotografada, estudada e condenada a ser uma estrela, mas os problemas de saúde, que atingem os animais clonados, não tardaram a tornar piores os seus dias.

Em 1999, a revista Nature divulgou que a ovelha apresentava sinais de um envelhecimento precoce, mas o problema tinha outra explicação e mais dúvidas por esclarecer: a que se deve e como se evitam as doenças auto-imunes - como a que Dolly tinha nas articulações - que estes animais desenvolvem.

Dolly foi eutanasiada a 14 de Fevereiro de 2003 para não continuar a sofrer com a infecção pulmonar incurável de que padecia. Morreu com seis anos de idade - os mesmos que tinha a mãe genética quando lhe foi retirada a célula mamária - e ainda hoje pode ser vista no Royal Museum of Scotland, em Edimburgo, onde está empalhada.

O falecimento de Dolly não encerrou o capítulo da clonagem, muito pelo contrário. O mundo viria a ser novamente surpreendido com a notícia de que uma companhia ligada a uma seita (os raelianos) tinha clonado uma pessoa e que esta já tinha nascido e sido baptizada com o nome de... Eva.

A notícia foi entendida como uma anedota pela comunidade científica, mas a Clonaid ainda hoje garante que 13 crianças - nunca mostradas - já nasceram graças à clonagem que pratica e assegura que, mensalmente, realiza entre 10 a 15 implantes de clones humanos.

A clonagem de outros animais continuou e, em Agosto, estendeu-se aos animais domésticos, com o nascimento de Snuppy, um galgo afegão.

A clonagem deste canídeo está, contudo, ligada à maior fraude da história da clonagem, já que o seu criador foi o investigador sul-coreano Hwang Woo-suk, acusado de fraudes em estudos com células estaminais humanas.

Hwang Woo-suk - que tinha sido considerado um herói na Coreia do Sul - publicou um artigo na revista Science a garantir que tinha produzido onze linhas de células estaminais embrionárias, mas nove eram falsas.

Já desacreditado, Hwang Woo-suk foi posteriormente acusado pela justiça sul-coreana de fraude e desvio de fundos.

A clonagem de Snuppy foi, no entanto, verdadeira e, de acordo com a revista científica britânica Nature, resultou da substituição do núcleo do óvulo por ADN de uma célula do animal clonado.

Em Portugal, a falta de verbas inviabilizou o projecto de clonar um bovino, experiência proposta pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar (ICBAS), no Porto.

É portuguesa a equipa que clonou com êxito um rato de laboratório, curiosamente numa parceria com Ian Wilmut, o «pai» de Dolly.

O rato foi baptizado com o nome de Figo e resultou de uma técnica inovadora na área da clonagem que já motivou o interesse de vários países em aplicá-la a roedores e a outros animais de maior porte.

O autor da experiência foi Ricardo Ribas, licenciado no ICBAS e graduado em Biologia Básica e Aplicada.

Este trabalho proporcionou a Ricardo Ribas a possibilidade de conhecer a mais famosa ovelha do mundo e, à Agência Lusa, o investigador contou que «não era das ovelhas mais simpáticas».

Em 2002, quando o cientista português se encontrava na Escócia a trabalhar na clonagem do Figo, Ricardo Ribas conheceu a Dolly e recebeu dela uma «inesperada afeição».

«Ela veio logo ter comigo, o que foi uma experiência muito engraçada», disse.

O ratinho Figo - nome com que o clone foi baptizado, por influências do campeonato europeu de futebol, que decorria quando foi clonado - nasceu saudável, embora obeso (como todos os animais clonados), o que animou os cientistas.

Figo foi eutanasiado em Fevereiro de 2005, após nove meses de uma saudável existência, acompanhada de perto por Ian Wilmut, que sempre se interessou por este projecto.

A decisão de entanasiar Figo deveu-se a uma hemorragia que atingiu o ouvido do rato, que apresentava igualmente uma conjuntivite no olho.

Diário Digital/Lusa, 04-07-2006 12:57:00