A CHATICE DAS ÁGUIAS
alferce-1-nw>
««ALTA TENSÃO NO ALFERCE - ACTA DE UMA DISCUSSÃO PÚBLICA
Por Manuel Rocha
In «barlavento», 1 de Junho de 2006 | 13:39
Alferce e arredores estão em estado de alerta. Não. Ainda não são os fogos do próximo Verão.
É a REN a pretender fazer passar ali ao lado nova auto-estrada eléctrica. Com os ânimos acesos e sob a batuta do Edil, o Povo reúne-se em sua casa e declara peremptório: «…por aqui não passará!»
Com origem em Sines, esta nova via capaz de iluminar o fundo do mar desde a Vila da Restauração ao Cabo do Infante, vem, diz-se, «reforçar o desenvolvimento» das grandes metrópoles do Barlavento.
Os velhos indígenas que, quais irredutíveis gauleses, ainda resistem ao êxodo rural que a vida moderna decretou, sentam-se ao lado dos jovens estrangeiros que a mesma vida moderna expulsou das grandes cidades.
Perplexos, uns e outros tentam perceber porque é que um primeiro traçado que percorria territórios já desertos de gentes foi abandonado. Na falta de comparência dos reputados técnicos que tinham sido convocados, a prata da casa esclarece: «é que esse traçado iria interferir com um casal de Águias de Bonelli que por ali ainda nidifica».
Pressuroso e pragmático, Zé das Auto-Estradas logo alvitra: «…porque é que não se fala com o Sr. Bonelli para ele mudar as Águias para o Cerro do Castro!?». Vantagem dupla: já não interferiam com o anterior traçado, mas sim com o actual.
Voluntarioso, Zé logo ali avança a disponibilidade do excedente de galináceos da mãe para a eventualidade de algo faltar à nova vizinhança.
Aprisionadas em exígua capoeira e a comer o milho do magro orçamento desde que foi decretada a eminente chegada da gripe dos pássaros, as galinhas tornaram-se um fardo que até calhava aligeirar, explica.
A Mesa passa ao lado da sugestão. Percebe-se que atribuiu o devaneio ao cheirinho das bicas do café do lado (quiçá produzido nalguma destilaria ainda ilegal por não ter construído instalações sanitárias independentes para o homem que lá trabalha e a mulher que nunca lá foi…).
A maratona prossegue. A cada esboço de questão responde longa prelecção do Edil. O povo aplaude. Percebe-se que não é por acaso que Monchique se encontra entre os Concelhos do País com direito a Presidente vitalício.
Bem documentado, Carlos Tuta conclui: «a rede que vá para outro Concelho, e se isto não for assim a REN que vá para Tribunal!». É o delírio! Com direito a orelhas e rabo, o Presidente sai em ombros com a faena cumprida: se amanhã Alferce acordar à sombra das torres da REN, toda a gente saberá que não foi por falta de empenho da Câmara que tal afronta não se evitou.
Vai adiantada a hora. Todos recolhem apressados a pensar nos afazeres dos dias seguintes. Há os que têm de ir replantar em Marmelete os sobreiros que se deitaram abaixo na Vila. Outros, terão que ir à Noruega (ou era à Finlândia?) à procura dos castanheiros que foram prometidos para substituir as árvores derrubadas pelas bermas das estradas.
Uns poucos têm que deitar mãos às tintas para repintar no azul-espalhafato e no verde-caca superiormente determinados pelo gabinete de arquitectos da Câmara, as obras mais emblemáticas do regime.
Os restantes ficarão, claro está, à espera que arda tudo de novo no Verão que aí vem. Sobra Zé das Auto-estradas. Pesaroso, recolhe a casa a matutar na maneira de chegar à fala com o Sr. Bonelli…
1 de Junho de 2006 | 13:39
Manuel Rocha »»

<< Home