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quinta-feira, novembro 10, 2005

A CIÊNCIA DE QUE SE FALA

ambio-jcm

Aderindo inteiramente ao que o José Carlos Marques publica na Ambio Archives, em 3 de Novembro de 2005, transcrevo a sua poderosa argumentação de crítica à ciência ordinária que hoje se endeusa.

««EXTINÇÃO OU SUICÍDIO: QUE É A CIÊNCIA?

«Há muito quem fale de ciência sem se aperceber que a ciência é uma criação do espírito humano e não uma realidade objectiva independente desse mesmo espírito. É o facto de ser uma criação do espírito humano que faz com que ela própria seja também objecto da capacidade crítica da razão humana.
Kant lançou os fundamentos da crítica da razão nas suas várias dimensões. Existe hoje dispersa e polimorfa uma crítica da razão científica que, porém, está por condensar e codificar.
Quando se diz ciência não é muitas vezes nítida a fronteira entre as várias possíveis acepções e dimensões do termo que, na maior parte dos casos, surgem imbricadas e que só uma mente atenta e treinada consegue distinguir.
Há decerto a ciência conhecimento positivo e válido e, dentro dos limites das sempre presentes possibilidades de erro, é aquilo que merece ser considerado na ciência. Mas há também a ciência-ideologia, a ciência-dogmática, a ciência-propaganda, a ciência-negócio, a ciência-religião e até a ciência-superstição.
Um dos sintomas que não engana, para localizar quem confunde ciência com esta tralha, é a convicção afirmada de certezas definitivas e absolutas quanto a resultados ditos científicos, esquecendo o abc do espírito científico que é o de considerar todos os resultados como, em maior ou menor grau, provisórios.
Quando se acusam certas pessoas e correntes de serem contra a ciência está a fazer-se na maior parte dos casos uma amálgama precipitada. Para facilitar fala-se frequentemente de ciência quando o que está em causa é uma das metamorfoses corrompidas que ela pode assumir e que enumero acima sem pretender ser exaustivo.
Uma das limitações dos que endeusam a ciência e englobam no termo tanto o conhecimento válido como o que será forçosamente perecível e superado ou descartado um dia está na confusão permanente entre teoria e facto positivo. Muitas vezes falam de certas coisas como se fossem factos e não teorias, ou seja, hipóteses integradas de grande envergadura.
Que a extinção futura das espécies actuais incluindo a humana seja muito provável ou praticamente certa, não custa a crer. Mas no plano da ciência-conhecimento positivo é, apesar de tudo e contra as aparências, por enquanto, uma teoria, por mais "robusta" que queiram considerá-la.
E nisso foi precedida pelo pensamento mítico e pelo pensamento religioso, por exemplo, no que aos humanos respeita, pelo Livro da Revelação.
Não quero obviamente dizer que estes tipos de pensamento sejam intermutáveis, porque não são. Apenas que, para quem analisar a história do pensamento humano (e no pensamento humano inclui-se o mito, a magia, a religião, a filosofia, a ciência, em parte a arte, cada um com a sua especificidade), não existe a descontinuidade absoluta que por vezes se apregoa e que serve de base à justificação e exaltação da ideologia cientista (que muitas vezes nem é feita por cientistas, alguns dos quais conhecem suficientemente bem as limitações da ciência-conhecimento positivo para embarcarem em grandes triunfalismos).
Mas, como teoria, a previsão da futura extinção da espécie humana é bastante satisfatória. O que não pode é confundir-se a extinção da espécie humana enquanto espécie biológica e o seu suicídio acelerado (o que, certamente, é também uma metáfora, já que tal acto só pode ser individual; para usar a metáfora, pressupõe-se, de modo simplificado, a "humanidade" como uma entidade).
Ora, parece-me, é essa amálgama que é feita na recente mensagem do Carlos Aguiar. O sentido do movimento de conservação da vida selvagem (vide Muir e Leopold, por exemplo), do movimento ecológico e do movimento ambiental universais, e de movimentos periféricos, é o de contrariar o avanço para o suicídio, o de defender a humanidade do "excesso de modernidade" (Leopold).
Mas, como já aqui apontei, e como confirma mais uma vez o Henrique Pereira dos Santos na sua mais recente mensagem, cada vez que se faz a crítica da "modernidade", logo os entusiastas da modernidade respondem com as desgraças do passado, não conseguindo compreender que o que está em causa são as desgraças do presente e portanto a tentativa de abrir caminho a um outro futuro.
É por isso que o debate nessas condições acaba sempre por escorregar para o diálogo de surdos (o que é comum a muitos outros debates não-ambientais).
Sim senhor, a mortalidade infantil estatística recuou imenso na época moderna. Mas... foi isso devido aos aspectos da medicalização contemporânea que um Ivan Illich, por exemplo, critica, ou foi-o sobretudo devido a factores anteriores a ela como o urbanismo, a higiene, as condições económicas e sociais?
E, pergunta que muito poucos ousam, foi isso um bem absoluto?
Todos nós preferimos viver a morrer, e sobretudo que os nossos filhos vivam e sejam poupados ao sofrimento e à morte.
Mas é hoje a nossa sociedade uma sociedade mais tranquila e pacificada em relação à morte própria e alheia que outras sociedades? Ou, pelo contrário, embora oculto e reprimido nas aparências, o medo da morte domina mais que nunca a nossa época?
E, ao contrariar os mecanismos da selecção dita natural, os progressos médicos e sanitários acentuaram ou não a curva exponencial do aumento da população humana, que é, juntamente com a multiplicação da força (tecnológica e energética), - como desde os anos 1960 apontou Barry Commonner - um dos dois factores (os dois juntos, nem só o aumento demográfico nem só o prodígio tecnológico) de destruição das próprias bases da vida de todas as espécies, incluindo a humana, que todos nós podemos observar e que parece imparável, acelerada até pelos próprios mecanismos e opções que, na superfície e no discurso, visam contrariá-la?
Assim, e obviamente no plano da teoria (hipótese integrada de grande envergadura), existe o risco de que todos os grandes progressos de que tanto se ufana a mentalidade "progressista" não passem de uma fase intermédia e passagem para uma aniquilação. É este risco que essa mentalidade "progressista" não entende, obnubilada que está pelas aparências de "melhorias" da condição humana que tanto preza.
Saudações, José Carlos Costa Marques»»
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«É muitas vezes negro o destino daqueles que se atrevem a pensar.»- Fernando Luso Soares