O MUNDO RURAL SEGUNDO JOSÉ CARLOS MARQUES
In «Ambio Archives», 1 de setembro de 2005
Por José Carlos Marques
Ecologista número 1 em Portugal, José Carlos Marques escreve, nos «Ambio Archives», um texto antológico sobre a revalorização do mundo rural, que subscrevo a cem por cento. Ecologia, afinal, é apenas a filosofia do bom senso e a ideologia do óbvio.- ABEL CAMPOS ARTIGOT
««O Henrique Pereira dos Santos, com quem partilho uma perspectiva de valorização do mundo rural, embora não necessariamente coincidente em alguns aspectos, e até divergente noutros, parece deduzir das minhas intervenções sobre esta temática que eu defendo que o mundo rural deveria ter-se mantido tal como estava nos anos 1950 e portanto na miséria. (Aliás, não há valorização do mundo rural que se anuncie sem que de imediato se erga um coro a acusar que queremos voltar à miséria de antanho... O Henrique não é o único...).
«Este assunto é muito melindroso e tem aspectos múltiplos com possibilidade de falsas interpretações ou de grandes equívocos, que exigiriam longas digressões. Vou por isso limitar-me a alguns aspectos.
«Pertenço a uma geração e a uma cultura na qual teve enorme impacto o
conflito entre Salazar e o então Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, cuja origem esteve precisamente associada à denúncia feita por este da "miséria imerecida do mundo rural". Essa denúncia foi partilhada por muitos, entre os quais um grupo dos então chamados "católicos progressistas" em que na altura, com menos de vinte anos e pouco mais de quinze, eu me integrava.
«A miséria do mundo rural era precisamente uma das características da sociedade portuguesa de então, que repudiávamos. Nunca me arredei dessa
posição, embora a minha adesão à perspectiva ecológica, alguns anos mais
tarde, me tivesse obrigado a rever, ao mesmo tempo que o meu ateísmo
post-católico, algumas noções básicas sobre o que era o "desenvolvimento" e sobre o que era a "riqueza" e a "miséria".
«O que penso do assunto está em parte expresso numa antologia que organizei e comentei, com pseudónimo, publicada em 1977 ou 78 na colecção Viver é Preciso (Edições Afrontamento, Porto), com o título MANIFESTO PARA UM RENASCIMENTO RURAL/SOBRE O ANTAGONISMO CIDADE CAMPO.
Numa perspectiva similar, tinha já traduzido e publicado na mesma colecção (também sob pseudónimo), em 1974, a obra de Claude Aubert A INDUSTRIALIZAÇÃO DA AGRICULTURA, SALVAÇÃO OU SUICÍDIO DA HUMANIDADE? (título da segunda edição, na primeira, tinha-lhe atribuído o título ALIMENTOS, SAÚDE E AGRICULTURA,
que exprime aliás bem o conteúdo).
«A mesma preocupação fez-me traduzir, prefaciar e publicar, ainda na mesma colecção, em 1988, o livro de Bernard Charbonneau, O JARDIM DE BABILÓNIA, a que atribuí um longo subtítulo que definia o âmbito da problemática moderna do mundo rural: os campos, as cidades, as regiões e o sentimento da natureza na sociedade moderna. Esses três livros permitem perceber melhor o que de facto defendo sobre esta matéria e que seria impossível transmitir em mensagens da ambio, embora tudo o que aqui venho escrevendo ao longo dos anos, se lido em conjunto, já permita evitar algumas amálgamas precipitadas.
Da próxima vez, sugiro que se tenham em conta esses três documentos antes de se etiquetar de regresso à miséria as minhas posições.
«É certo que hoje o mundo rural em Portugal apresenta zonas de bem-estar sem medida comum com o que tinha nos anos 1950. Mas, como o próprio Henrique reconheceu, o mundo rural está morto. Ou seja, o mundo rural foi objecto de uma morte confortável. Figura de retórica hiperbólica, claro, mas que contém uma verdade insofismável.
«E mesmo assim permanecem em Portugal populações rurais vítimas de um esquecimento e desprezo semelhante àquele que foi denunciado por D. António Ferreira Gomes, e que vivem numa miséria muito real, que os fogos apenas agravam e tornam mais trágica e imerecida. Basta ver as reportagens por ocasião dos fogos (ou quando da ponte que ruiu em Entre-os-Rios) para ver como ficaram marginalizados esses remanescentes e o esquecimento a que são ainda sistematicamente votados.
«Para que o mundo rural português se tornasse em geral mais próspero, o movimento histórico de expansão do modo de vida industrial teve que praticamente o reduzir a um mundo fóssil com algumas áreas excepcionalmente activas no meio de um mar de vazio ocupado por pinhais e eucaliptais. A emigração foi obviamente uma alavanca poderosa nesse processo, com o consequente abandono. Digamos que interessante teria sido retirar o mundo rural português da sua miséria imerecida sem o... liquidar e reduzir a quase zero.
«Era esse o programa da primeira vaga de ecologistas (ondícula seria um
termo mais exacto) que se manifestaram em Portugal. Obviamente a história seguiu outro curso, aparentemente mais "realista". Alguns de nós éramos e ficámos uns doidos quixotes a querer a quadratura do círculo: um mundo rural vivo e sem miséria. Os sanchos panças bem podem rir-se de nós, que coisa mais ridícula que um quixote submerso em ruínas de moinhos de vento?
«No entanto, o mundo que nos legaram os sanchos panços do "desenvolvimento" triunfante não parece propriamente um mundo sedutor e com futuro sereno previsível. Sem esquecer que, emocionalmente, muitos dos que fugiram à miséria desse mundo rural nunca deixaram de estar a ele ligados e de a ele querer regressar, quando não resistiram enquanto puderam a partir.
Simplesmente, o fruto do seu labor foi utilizado, não para tornar viável o
mundo que haviam deixado, mas para reforçar o movimento económico mesmo que os tinha "aspirado". Obviamente, trata-se de um fenómeno mundial, e não apenas português. Nem por isso o seu significado pode ser liminarmente reduzido a uma questão de "miséria" versus "desenvolvimento".
«A erosão, a conservação e quejandos ficam por enquanto à espera de melhores dias... mas tudo está já dito em vários tons e sons.
Cordialmente,
José Carlos Marques

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