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sexta-feira, setembro 23, 2005

UM LIVRO EM CADA 30 SEGUNDOS

UM LIVRO EM CADA TRINTA SEGUNDOS?

Agradeço a Pedro Mexia, no «Diário de Notícias», 23 de Setembro de 2005, ter dito em poucas palavras e com exactidão o que eu há muito pensava sem saber dizer e até com algum receio de o dizer, já que estamos sempre vigiados por polícias chamados intelectuais e críticos: assustam-me as grandes e pequenas livrarias, assusta-me a quantidade de livros lançados no mercado. No entanto, adoro livros. Os livros são a minha companhia inseparável. Mas há que filtrar cada vez mais o que leio, para não dar em doido com a inflação. Pedro Mexia diz o número: um livro produzido em cada 30 segundos.
Recordo-me, porém, que também ele escreveu sobre a net e a quantidade de informação nela debitada: não é, evidentemente, para cérebros humanos.
Hoje até gostaria de ter acesso a esse artigo para o incluir também no meu blog : mas mais uma vez o diário de notícias on line me defraudou. Consultei os textos de Mexia na função search e nada.
Afinal, não há que confiar muito em modernices e acessos on line: e apesar de tudo, o livro continua a ser mais fiável...Mais fiel.
Transcrevo o texto de Pedro Mexia.

««Ministério da Cultura
«DEMASIADOS LIVROS

«Pedro Mexia (pedromexia@gmail.com )
««A rentrée literária francesa 2005 produziu, de uma penada, 663 novos romances. É assim em todo o lado livros, livros e mais livros, numa avalanche que deixa o consumidor mareado e o comprador sem espaço nas estantes.
«Em Los Demasiados Libros (2003), que li em tradução inglesa (So Many Books), o mexicano Gabriel Zaid analisa esse fenómeno em chave sociológica e tom irónico e triste. Cito alguns números "Em 1550 foram publicados 500 títulos, 2300 em 1650, 11 000 em 1750, 50 000 em 1850. Em 1550 existiam aproximadamente 35 000 títulos; em 1650, 150 000; em 1750, 700 000; em 1850, 3,3 milhões; em 1960, 16 milhões; em 2000, 52 milhões."
«A grafomania contemporânea conduziu à publicação continuada de milhões de livros, um a cada 30 segundos. Desses muitos, mesmo as pessoas muitíssimo letradas leram uma ínfima parte. Nenhum de nós pode mais dizer que leu muitos livros. Não lemos certamente noventa e nove vírgula nove por cento dos livros existentes. Uma simples lista com todos os títulos publicados, diz Zaid, levava 15 anos a ler. Comenta o ensaísta "Os livros são publicados a um ritmo tão veloz que nos tornam exponencialmente mais ignorantes. Se uma pessoa lesse um livro por dia, estaria a deixar de lado outros quatro mil, publicados no mesmo dia. Por outras palavras, os livros que não leu amontoavam-se quatro mil vezes mais depressa que os livros que leu, e a sua ignorância crescia quatro mil vezes mais que o seu conhecimento." É uma angústia que nós leitores temos quando entramos numa excelente livraria. Uma angústia sem solução.
«Zaid sublinha que haver imensa gente que escreve não significa que haja imensa gente que leia. Ou melhor que leia cada um desses livros. Muitos dos milhões de títulos publicados não vendem quase nada, não são lidos por quase ninguém, aparecem para desaparecer de imediato, vogando num oceano imenso, esquecidos em infindáveis bibliotecas poeirentas. A biblioteca de Babel é uma biblioteca fantasma.
«A existência de muitos livros é um facto inequivocamente feliz. Mas a existência de demasiados livros tem um aspecto melancólico, como Gabriel Zaid aqui nos demonstra, com grande destreza e elegância.»»