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terça-feira, setembro 13, 2005

MEGALITISMO ALENTEJANO

In diario de noticias, 19 de abril de 2005
Centenas de vestígios pré-históricos 'escolheram' Évora para morar


Isaltina Padrão-Miguel Gonçalves da Silva

"Eis-me de novo em Évora,... o sol limpa-lhe a face, a colina ergue-a na mão como um objecto de preço." Entre as tais peças valiosas, Vergílio Ferreira poderia muito bem ter incluído as várias centenas de monumentos megalíticos que, à medida que avançamos na muralha de terrenos que rodeia a capital da província alentejana, nos surgem, aqui e além, como uma verdadeira Aparição.
Chaparro sim, chaparro não, eis que se vê por toda a paisagem um salpicado de antas e menires que já "habitavam" naquelas bandas no quarto milénio a.C. Às duas centenas de artefactos identificados nos anos 40/50 por dois arqueólogos alemães foram-se juntando, pouco a pouco, vários outros, elevando esta concentração de monumentos megalíticos à categoria de maior da Península Ibérica.
De tal modo, que, à distância e à vista desarmada (visão de leigo!), chegam a confundir-se com as também inúmeras rochas naturais (ecofactos para os experts!) que também povoam a região.
Devagar, devagarinho, de preferência fazendo-nos transportar num todo terreno, não é difícil a aproximação a alguns dos afloramentos graníticos mais imponentes e visitáveis. Veículos estacionados, está na altura de caminhar alguns metros, mas não por um caminho qualquer. Por carreiros que remontam à época medieval.
Primeira paragem obrigatória o cromeleque Vale Maria do Meio - assim designado por estar situado na herdade com o mesmo nome. O monumento, prestes a ser classificado pelo Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), tem o formato de uma ferradura, cuja abertura está voltada para nascente. "Isto representava um marco na paisagem, que servia de orientação aos agricultores da altura", explica ao DN o arqueólogo municipal, de origem grega, Panagiotis Sarantopoulos, adiantando pouco mais. Ironicamente, justifica as parcas palavras: "Há muito pouca informação sobre menires, porque as pedras não falam. E como na pré-história não havia registos escritos, tudo que sabemos à cerca deles é o que vamos explorando e deduzindo." Uma coisa é certa: o seu formato fálico presta culto à vida e à fecundidade.
Analisados os cerca de 30 menires que compõem este aglomerado, está na altura de fazer a segunda paragem obrigatória e, de longe, a mais visitada pelos turistas. É o cromeleque dos Almendres, considerado um dos momentos públicos mais antigos da humanidade. Com quase uma centena de monolíticos diferentes - alguns assemelham-se a figuras humanas, outros a amêndoas - teorias recentes apontam para que este recinto possa ter servido para funções mágico-religiosas.
As diversas formas e dimensões dos menires, reforçadas pela presença de gravuras associadas a símbolos de poder (o báculo, sobretudo) e a elementos astrais masculinos e femininos (o sol e a lua) "faz pensar que o recinto configure o culto dos antepassados para a emergência das linhagens, e seja sinónimo da estratificação social que sobreveio à revolução Neolítica", pode ler-se no Guia Turístico do concelho de Évora.
Por sua vez, o culto aos mortos é feito na terceira paragem obrigatória a Anta Grande do Zambujeiro (ver capa) - "o mais elevado monumento funerário megalítico da Península Ibérica e um dos mais interessantes da Europa", diz o guia. Ao que o arqueológo grego acrescenta "durante muito tempo este monumento nacional era uma espécie de santuário, onde muita gente queria ser enterrada". Hoje, estes e vários outros monumentos ancestrais que podem ser visitados teriam, por certo, bastante mais informação a dar aos arqueólogos. Isto, se as pedras falassem, claro!